130 filhotes de tartaruga-de-pente, espécie ameaçada, nascem em Paracuru
Paracuru registrou, na manhã da última terça-feira (16), o nascimento de 130 filhotes de tartaruga-de-pente, espécie ameaçada de extinção. A eclosão, acompanhada por equipes de monitoramento, marca o primeiro registro do tipo realizado pela Rede Tartamar no município, no litoral cearense.
A ação faz parte das atividades da Rede Tartamar Paracuru, iniciativa dedicada à proteção de tartarugas marinhas que utilizam as praias da região como área de desova. Atualmente, cerca de 15 ninhos estão sob acompanhamento ao longo do litoral do município, com monitoramento contínuo das áreas onde há indícios de postura.
Considerada uma espécie ameaçada de extinção, a tartaruga-de-pente depende de condições ambientais específicas para garantir a reprodução. O nascimento dos filhotes ocorre após semanas de incubação dos ovos na areia, encerrando uma etapa importante do ciclo reprodutivo desses animais no litoral do Ceará.
O episódio também marca um avanço nas ações de conservação marinha desenvolvidas pelo campus de Paracuru do Instituto Federal do Ceará (IFCE), que atua em parceria com secretarias municipais, a Prefeitura de Paracuru, a gestão de Áreas de Proteção Ambiental e a comunidade local. A proposta é fortalecer um modelo de preservação baseado na integração entre ciência, gestão pública e participação social.
A iniciativa é um desdobramento do projeto de extensão Amigos do Mar, desenvolvido pelo IFCE desde 2018, com foco em educação ambiental e combate à poluição marinha. Ao longo desse período, já foram retiradas das praias mais de duas toneladas de resíduos sólidos, além de mais de 13 mil bitucas de cigarro, resultado de mutirões de limpeza e ações de sensibilização.
Segundo a professora Luciana de Castro, coordenadora do projeto, o monitoramento das tartarugas surgiu a partir da própria vivência em campo. “Infelizmente, o alerta inicial veio de forma negativa, com registros frequentes de mortes de tartarugas e relatos de possíveis ninhos pela comunidade. O ponto de virada ocorreu no ano passado, quando identificamos rastros e um ninho de desova. A partir disso, percebemos a urgência de gerar dados técnicos que subsidiem estratégias reais de conservação”, relata.
Equilíbrio ambiental
As tartarugas marinhas desempenham papel essencial na manutenção do equilíbrio ambiental. De acordo com a professora Cibele Monteiro, integrante da iniciativa, esses animais “não utilizam as praias apenas como local de deposição de ovos, mas fazem parte de um complexo conjunto de interações ecológicas, sendo essenciais para a manutenção da saúde dos ecossistemas marinhos e costeiros.”
Entre as funções ecológicas da espécie estão o controle de populações de organismos como águas-vivas e esponjas, a preservação de habitats marinhos e a ciclagem de nutrientes. Mesmo os ovos que não chegam a eclodir contribuem para a fertilização da areia, enriquecendo o ambiente costeiro.
O monitoramento dos ninhos ocorre principalmente durante a noite e nas primeiras horas da manhã, períodos em que há maior probabilidade de identificação de rastros e áreas de desova. Após a eclosão, a equipe realiza a chamada abertura assistida dos ninhos, procedimento técnico que permite avaliar o sucesso reprodutivo e identificar fatores que possam ter interferido no desenvolvimento dos ovos. “Esse procedimento permite contabilizar cascas, identificar ovos não eclodidos e compreender possíveis causas de insucesso, gerando informações fundamentais para o monitoramento e a conservação das espécies”, explica Cibele.
O trajeto dos filhotes até o mar também é considerado um momento determinante. Além do impacto visual, esse percurso ativa mecanismos biológicos importantes, como o imprinting, processo pelo qual os animais registram características da praia de nascimento, o que futuramente orientará o retorno das fêmeas para a desova.
Rede Tartamar Paracuru
A iniciativa envolve professores e estudantes dos cursos de Tecnologia em Gestão Ambiental e Licenciatura em Ciências Biológicas do IFCE Paracuru, mas tem como diferencial a participação ativa da comunidade local no processo de monitoramento.
“Ao unirmos o braço técnico e a capilaridade social do Amigos do Mar, criamos uma rede em que o pescador e o bugueiro se tornam agentes de conservação. Isso é fundamental para o Ceará, onde o uso múltiplo da zona costeira exige um ordenamento baseado em fatos, não em suposições”, destaca a professora Luciana de Castro.
Além da produção científica, o projeto também aposta no potencial educativo das ações em campo. Quando o nascimento ocorre sem interferência, a equipe permite a participação orientada da população, transformando o momento em uma experiência de sensibilização ambiental. “Trata-se de uma experiência com forte potencial educativo, que contribui para o engajamento da população nas ações de proteção dessas espécies”, afirma a professora Cibele Monteiro.
Fonte: GC+

