Inmet emite alerta para novo El Niño; Ceará segue atento a possíveis impactos

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu, nesta terça-feira (9), um alerta para condições favoráveis ao desenvolvimento de um novo episódio do fenômeno El Niño. O aviso aumenta a atenção de órgãos meteorológicos em todo o País e reforça as preocupações já manifestadas pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) sobre possíveis reflexos para o Ceará nos próximos meses e, principalmente, durante a quadra chuvosa de 2027.

Segundo o Inmet, o fenômeno está associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e a alterações nos padrões atmosféricos globais. De acordo com os critérios adotados pelo órgão, o El Niño é caracterizado quando o Índice Oceânico Niño Relativo (Roni) permanece igual ou superior a 0,5°C durante pelo menos cinco trimestres consecutivos.

“Com base nos dados observados no mês de maio e nas projeções, é possível inferir que o primeiro trimestre a atingir esse limiar será abril-maio-junho”, informa o boletim divulgado pelo instituto.

O Inmet monitora continuamente a temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial, além de indicadores oceânicos e atmosféricos relacionados ao fenômeno. O órgão também utiliza dados e projeções dos principais centros internacionais especializados em monitoramento climático. Uma nova nota técnica sobre a evolução do cenário deverá ser divulgada ainda esta semana.

Funceme monitora avanço do fenômeno desde o início do ano

No Ceará, a preocupação com o possível retorno do El Niño já vinha sendo discutida desde janeiro de 2026. Em abril, a Funceme publicou uma primeira nota técnica apontando sinais iniciais do aquecimento das águas do Pacífico. No fim de maio, uma nova análise reforçou o cenário de atenção diante do aumento acelerado das temperaturas na região central-leste do oceano.

Segundo dados da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), existe mais de 60% de probabilidade de ocorrência de um El Niño forte entre outubro e dezembro deste ano. Para o trimestre novembro-dezembro-janeiro de 2027, a chance de permanência do fenômeno ultrapassa 90%.

De acordo com o diretor técnico da Funceme, o meteorologista Francisco Vasconcelos Júnior, o monitoramento permanente é fundamental devido aos impactos que o fenômeno pode provocar no comportamento climático do Estado. “Em geral, o impacto de eventos de El Niño fortes e moderados está relacionado à diminuição da precipitação durante a estação chuvosa e altas temperaturas”, explica.

O especialista ressalta, entretanto, que cada episódio possui características próprias e que outros sistemas climáticos também influenciam o regime de chuvas no Ceará.

“Em 2025, por exemplo, foram observadas condições neutras no Pacífico Equatorial. Naquele ano, outros fatores climáticos, como o Atlântico Tropical, tiveram maior influência sobre o comportamento das chuvas no Ceará”, afirma.

Calor acima da média e queimadas entram no radar

Embora os impactos mais significativos sejam esperados para 2027, a Funceme alerta que os primeiros reflexos podem começar a ser sentidos ainda no segundo semestre deste ano. “A preocupação com temperaturas acima da média, aumento da evapotranspiração e maior ressecamento da vegetação e do solo já pode trazer reflexos ainda este ano. Isso pode ampliar impactos sobre recursos hídricos, agricultura e risco de incêndios florestais”, destaca Francisco Vasconcelos Júnior.

As regiões do Sertão, Inhamuns, Jaguaribana e áreas de caatinga mais vulneráveis ao déficit hídrico estão entre as que demandam maior atenção.

Outro ponto de preocupação é o aumento do risco de queimadas.

“O El Niño favorece condições mais secas e quentes, reduzindo a umidade da vegetação e do solo. Isso aumenta a inflamabilidade do material vegetal e facilita a propagação do fogo”, afirma o diretor técnico da Funceme.

A fundação também ressalta que ações humanas, como queimadas irregulares e manejo inadequado do fogo, contribuem para agravar o problema.

Quadra chuvosa de 2027 preocupa especialistas

Os efeitos mais relevantes do fenômeno tendem a ocorrer entre fevereiro e maio de 2027, período correspondente à estação chuvosa do Ceará. Os meses de março e abril são considerados especialmente sensíveis, por coincidirem com o período de maior atuação da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), principal sistema responsável pelas chuvas no Estado.

Historicamente, episódios moderados e fortes de El Niño costumam estar associados à redução das precipitações no Ceará, embora os especialistas ressaltem que o cenário ainda está em evolução e segue sendo monitorado.

Aquecimento das águas já era observado em subsuperfície

Segundo a Funceme, os primeiros sinais de preocupação surgiram ainda no início de 2026, quando foram observadas mudanças nas condições oceânicas em superfície e subsuperfície.

“Naquele momento, o Oceano Pacífico próximo à linha do Equador apresentava diminuição das áreas com águas mais frias. Em subsuperfície, até cerca de 300 metros de profundidade, já era observada a propagação de águas mais quentes da região da Indonésia em direção à costa da América do Sul. Essas ondas, chamadas Ondas de Kelvin Oceânicas, são um importante indicativo da evolução do fenômeno”, detalha Francisco Vasconcelos Júnior.

Apesar do cenário de alerta, a Funceme reforça que o fenômeno ainda está em processo de monitoramento e que novas análises serão divulgadas nos próximos meses, conforme as projeções climáticas forem se consolidando.

Fonte: Opinião CE